Exército

 

Logo que terminei o ensino médio, final de 1981, surgiu a obrigação do serviços militar obrigatório. Alistei-me na Vila Militar no Rio de Janeiro e pedi para ser aproveitado em razão da experiência de um primo, Sérgio. Pensei que seria designado para uma unidade operacional mas minha designação foi para um quartel de ensino, ESAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais) .

Como soldado, passei por uma etapa que envolve todo contingente do exercito, muita ralação. Muita atividade física e uma exagerada pressão emocional. Erros que cometi tempos depois foram reflexos de uma avaliação equivocada da preparação que havia recebido como soldado. Foi um período difícil, recebia pouco mais que metade de um salario mínimo, não tinha tempo para nada e era muito exigido fisicamente. Apos o primeiro trimestre, por ter formação como técnico de enfermagem, fui alocado na seção de saúde do quartel. Nesse período não estudei, tive uma distancia da família. No final de 1982, terminei o serviço militar obrigatório.

Tenho a certeza de que o Exército Brasileiro foi um presente de DEUS para que ali eu fizesse a transição entre a criança e o homem. Ali foi o ambiente que DEUS iria me provar como nunca antes havia. O ambiente militar me proporcionou entender, e aceitar, o que é disciplina e dedicação. Fiz concurso no ano de 1982 e aprovado fiz todos os exames físicos e médico tendo sido aprovado em excepcional colocação.

Na verdade minha primeira opção era a Escola de Especialistas da Aeronáutica mas não fui aprovado no concurso que realizei. Iria tentar no ano seguinte a Escola da Aeronáutica mas antes tentei o concurso para Sargento e como fui aprovado optei em não perder a chance e dei seguimento ao processo seletivo. Estava fininho, bem preparado fisicamente mas não emocionalmente. Creio que não estava preparado para as tensões da vida e vivia como se estivesse em um game.

Confesso que foi ótimo ter sido aprovado, e muito bem colocado em um certame nacional. Lembro-me do primeiro dia em que me apresentei na EsIE, em Realengo/RJ, me lembro que fiquei em uma fila para entrega de documentos que levou das 08H00 as 17H00. Pura ignorância pois não existiam motivos para manter os alunos em pé durante tanto tempo apenas para forçar já na matricula a desistência.

Fui forte e não me deixei abater, apesar de estar esgotado fisicamente. Entregues os documentos teve inicio o curso. Mesclavam educação física com aulas teóricas. Uma das que mais me impressionou foi a de Guerra química. Lembro que colocaram um grupo de uns 10 alunos em um cômodo de 4 metros quadrados, portas de ferro fechas por fora, lá dentro um sargento com mascara de gás que colocou gás lacrimogênio no ambiente. Não sabia o que era aquilo mas confesso que foi traumático. A sensação era de que iria morrer. Não conseguia respirar. A dor nos olhos era enorme. Como tinha alguns sargentos temporários no grupo e que já tinham vivido essa experiência, em raro momento de sobriedade e inteligência, olhei para eles e tentei imitar o que faziam, ou seja, tentei ficar o mais relaxado possível, quieto e respirar o mínimo possível, sempre de olhos fechados. Os sons dentro do ambiente eram

indescritíveis. Gritos, choros. Quando a porta abriu todos saíram correndo, não importando para onde.

O curso ficou melhor quando terminado a fase destinada a preparação militar e física fui transferido para a especialidade que iria seguir pelo resto da carreira militar, Saúde. faria os sete meses restantes do curso na Escola de Saúde do Exército, em Benfica/RJ. Tirava serviços na própria Escola. A EsSEx era outro ambiente. Uma escola voltada para formar médicos , dentistas, farmacêuticos e sargentos tinha uma rotina voltada mais para preparação técnica dos Sargentos razão pela qual tinha aulas teóricas e técnicas na área que eu já dominava. Fiz estagio no Hospital Central do Exercito e no Instituto de Biologia do Exercito tendo me formado em outubro de 1984.

 Pouco antes de terminar o curso, foi apresentado a colocação de cada aluno no curso, fui o decimo segundo colocado, e apresentado uma relação de quarteis em vários estados do Brasil sendo facultado por ordem de colocação a escolha da unidade militar em que cada Sargento iria servir. Já estava preparado para escolher e sabia os critérios que adotaria na escolha. Já havia definido que não iria ficar no Rio de Janeiro e estava torcendo para que abrissem vagas em Brasília pois lá os militares tinhas residência funcional.

Apresentadas as vagas, duas em Brasília, uma no DRS/11 outra no Colégio Militar de Brasília. Os primeiros colocados foram fazendo suas opções, geralmente escolhendo as cidades de onde vieram e quando chegou minha vez fiz as duas vagas de Brasília estavam abertas. Optei pelo DRS/11. Foi um erro mas a escolha estava feita.

Na verdade o meu primeiro erro foi escolher uma unidade longe da família, a segunda a unidade e a terceira, casar. Ainda não estava preparado para deixar o pouco que tinha, minha família, e constituir uma família. Éramos muito novos. Mas, escolhi ir para longe apenas porque em Brasília eu teria um apartamento funcional, sem custo.

Apesar de me adaptar bem ao ambiente, o casamento era de pura tensão. Muitas brigas. Uma coisa contamina a outra. Ou a alegria da independência contagiaria o casamento ou as tensões do casamento contagiariam o meu trabalho, e foi isso que aconteceu. Desesperadamente, com apenas 1 ano de formado já estava tentando uma transferência para um quartel no Rio de Janeiro. Foi-me designado o Batalhão de Policia do Exercito.

Interessante que, já sabendo da transferência, acabei sendo destacado para participar de um acampamento que se realizaria pelo DRS/11 na cidade de planaltina. Mesmo avisando da transferência foi dito que deveria ir ao evento pois a transferência não havia sido publicada no Diário Oficial da União. No ultimo ato da cena, me envolvi em eventos que permearam a mídia nacional e internacional durante muito tempo.

Tinha um ano de formado e o Brasil vivia o momento de transição entre a vela e a nova republica. Os militares estavam deixando o governo e o presidente da republica por eleições indiretas era um civil. Em Planaltina ocorreu um acidente em que soldados tiveram pequenas lesões em razão de uma instrução de gás lacrimogêneo e como eu era o Militar que ministrava a instrução fui responsabilizado.

No dia seguinte os jornais publicaram que havia torturado soldados, havia jogado granadas e alguns deles haviam morrido outros estariam em estado grave no hospital. Nada disso aconteceu mas de um momento para outro fazia parte das manchetes pelo Brasil e pelo mundo como um militar que torturou 108 soldados. Ainda no quartel o comande me procurou para dizer que iria me prender. Perguntei o porquê se não havia feito nada. Como resposta me foi dito que superiores haviam assim determinado para acalmar a imprensa. Odiei aquilo. Senti-me injustiçado.

No dia 09 de abril de 1986, foi publicada minha punição cujo teor foi o seguinte: “por ter contribuído para denegrir a imagem do Exército perante a opinião pública , com efeitos danosos a disciplina militar, possibilitando a difusão de noticiais, sobre assuntos que concorreram para por em jogo o prestígio da instituição e por ter ofendido a moral e os bons costumes da classe militar [qualificação do CPM], transgressão grave, fica preso por 30 (trinta) dias, permanece no comportamento bom.”

Jamais consegui me identificar como sendo a pessoa que sofreu a punição.

Fiquei preso 30 dias, em uma solitária prisão no Batalhão da Guarda Presidencial em Brasília. Durante os 30 dias que lá fiquei pude ouvir meu nome completo ser pronunciado no Jorna Nacional. Tinha 22 anos e aquilo era um terror. Ao ser libertado já não era o mesmo, alias, nunca mais seria. Retornei ao DRS/11 e como realizava minha escala de serviço na emergência do hospital geral de Brasília.

No dia 09 de junho de 1986 fui julgado pela auditoria militar. Fui absolvido por unanimidade. Houve recurso e no dia 30 de outubro de 1986 o STM, por maioria, resolver me condenar a 3 meses de prisão. Essa decisão me colocou no comportamento mal tendo selado a minha saída do exercido pois não teria tempo de sair do comportamento mau e assim minha estabilidade no serviço público não seria concedido.

A decisão do STM marcou ano, mês, dia e hora para minha despedida do Exército. Um dia que sonhos de uma criança estava se perdendo. Senti-me o pior dos homens. Sem honra. Abandonado.

Meu nome de guerra era MARIANO, tendo alterado para ALEXANDRE. Achei que mudando o nome poderia recuperar o que havia perdido. Recomeçar. Ledo engano. Os problemas continuaram latentes. A virtude não é fugir dos problemas mas sim os enfrentar, com dignidade, sem mudar quem somos.

Mas a vida continuava e enquanto o “DIA D” não chegava, em certo dia que estava de serviço na emergência do Hospital fui surpreendido pela presença do Ministro do Exército, para um atendimento médico. Aproveitando a ocasião a ele me apresentei e disse que gostaria de lhe fazer um pedido. Em resposta ele disse saber quem eu era . Pedi que fosse transferido para o Hospital. Em resposta me disse que informasse ao comandante do DRS/11 que fizesse contato com ele no dia seguinte, o que fiz. No dia seguinte estava transferido para o Hospital, sendo transferido para o setor de farmácia do hospital.

Como sabia que minha permanência no exercito seria um milagre, aproveitando que tinha curso de programação de computadores, pedi que fizesse um curso no CInfor, Centro de Informática do Exercito. Fui atendido, Por lá fiquei uns 6 meses e ao retornar fui alocado no setor de informática do Hospital. Foram dias agradáveis.

Retornei ao Hospital da Guarnição da Vila Militar, transferido para o setor de computação. Um dia estava trabalhando no hospital quando fui procurado por um militar de serviço me informando que um soldado havia sido baleado em um assalto e pedia para falar comigo. Pelo que me lembro era um dos soldados que foram chamados como testemunhas contra mim no processo militar. Nunca irei esquecer pois ajudei muitos desses soldados. Minha conversa com ele foi muito rápida pois ele apertou minha mão, pediu desculpas e eu as aceitei. Horas depois fui informado que tinha falecido. Todo final de ano, enquanto estive no Hospital, recebia visita de soldados para me desejar um feliz ano novo. Até hoje não sei como conseguiram construir a imagem de um militar duro e severo sobre mim.

Preparei meu retorno ao Rio de Janeiro sendo transferido em 1989 para o 21 Batalhão Logístico. Ao deixar o Hospital recebi um agradável elogio em minha ficha funcional “Transferido para a seção de computação, sinto-me no dever de elogiá-lo pela sua valiosa colaboração a essa chefia, sempre demonstrou ser um profissional de excelente qualidade , educado, disciplinado, amável com seus superiores e subordinados; auxiliar capaz, soube manter bom relacionamento para o perfeito funcionamento desta seção . Ao 3o Sgt Alexandre meus agradecimentos e votos para que continue galgando com brilhantismo os degraus da carreira militar”.

Fui muito bem recebido e para minha surpresa destinado para ser assistente do chefe da primeira seção, como chefe da carteira de controle de pessoal até o dia em que tive que deixar a carreira militar e retornar a vida civil, o que ocorreu em 1990.

Folheando minha ficha funcional (livro de alterações), observo, entre as ultimas anotações de minha ficha funcional, a manifestação de despedida publica no Boletim do 21 Batalhão Logística, proferida pelo Capitão comandante da 1a seção, que transcrevo: ” E com satisfação e por dever de justiça que torno público o elogio ao 3 Sgt Mariano. Transferido do HGeB (Bsa-DF)apresentou-se pronto para o serviço nesta OM em 12 Dez 88 e desde logo passou a disposição da 1 seção onde foi designado para função de chefe da carteira de controle/classificação de pessoal. Durante o período em que trabalhou como meu auxiliar, o 3 Sgt MARIANO, demonstrou ser um militar inteligente, organizado e profundo conhecedor das atividades ligadas a área de informática. Com seu trabalho metódico possibilitou que a 1 seção mantivesse sempre em dia e em ordem as atividades de controle de pessoal . Procurando sempre através de atividades de pesquisa, melhorar as formas de exercer o controle sobre os efetivos do Btl., o 3 Sgt MARIANO demonstrou ser um auxiliar valoroso, preocupado com o bom andamento do serviço e em assessorar corretamente e com oportunidade o seu chefe de seção. Fruto de seu espirito expansivo angariou desde cedo a amizade e respeito de todos os integrantes da seção, procurando sempre, auxiliar nos demais trabalhos desenvolvidos na atividade de pessoal. Excelente datilografo, sempre apresentou seus trabalhos com esmero e de forma impecável. Sempre que chamado atuar na área de sua QMS de formação o 3 SGT MARIANO demonstrou ser também um excelente conhecedor da atividade do Serviço de Saúde. Infelizmente, não poderemos mais contar com a colaboração deste militar no serviço ativo, em razão do seu licenciamento das fileiras do Exercito. Tenho a certeza que se regresso ao meio civil se fará de forma tranquila pois, enquanto no serviço ativo, o 3 Sgt MARIANO poderá se orgulhar de ter cumprido o seu dever, não só para o Exército, mas principalmente para com a pátria. Na nova fase que ora se inicia, o 3 Sgt MARIANO, obterá por certo, muito sucesso, função de suas qualidades pessoais e qualificações tecniprofissionais . Ao 3 Sgt MARIANO os sinceros votos de felicidades, lembrando-lhe que o 21 Batalhão Logístico, estará sempre de portas abertas a este companheiro que hoje nos deixa. Seja feliz.”.

Guardo boas lembranças da caserna. Tive um grande aprendizado. Evolui bastante como homem, a começar no serviço militar obrigatório quando aprendi o que significa hierarquia e disciplina, não que não fosse disciplinado e obediente mas pela otimização dessas características. O período de formação profissional como também o período em que estive nas fileiras do Exército Brasileiro me fizeram amadurecer. Foi nesse período de deixei de lado a utopia de que o mundo é bom, puro e verdadeiro. Ainda sinto saudades. Admiro os militares, admiro o Exército Brasileiro e me curvo em afirmar que me senti injustiçado mas reconheço que sou grato pelos caminhos que lá percorri.

Tive grande decepção quando não pude obter a estabilidade mas como creio em DEUS tenho a convicção de que fui preparado para uma vida digna.

A DEUS toda HONRA e a ele toda GLÓRIA.